domingo, março 05, 2006

Tudo certo

Bam....a porta bateu. Maliciosamente sai da sala depois de ter deixado-a desnorteada. Afinal de contas, terça-feira de Julho, frio até não poder mais. Eu vestido da cabeça aos pés, ainda mais usando aquele gorrinho de tricô, que encontrei lá em casa. A nova faxineira ainda não acertou os lugares certos das coisas. Então eu, uma pessoa descolada, querendo usar o novo gorro para sair por aí, acabei utilizando aquele dos meus bons dez anos de idade, que tem um pompom felpudo preso bem no meio. Ridículo para minha idade porém nesse frio fora minha salvação.
O frio representava bem o estado de espírito que estava. Sem muita conversa, pretensão individualista, doido por chamego quente numa noite clareada pela lareira alheia.Caminhei rápido pelas largas ruas arborizadas do meu bairro. Sem muitos subidas, algo raro na cidade, fui me protegendo do vento gelado que tomara conta da região naqueles últimos dias. Será que não vai cessar? Ou é muito quente ou muito frio. Nunca fui em cima do muro, mas agora gostaria que estivesse meio a meio, nem frio nem calor. Quem sabe no máximo um casaquinho.
Dobrei a ultima esquina, com o nariz vermelho e escorrendo, tentando aquecê-lo com as luvas de esqui. Apesar de serem raras as vezes que os singelos flocos brancos caiem, sempre quis ter um de boa qualidade para o dia de isso acontecer. Continuo a esperar. Falta pouco para chegar ao prédio da universidade onde estudo. Suntuoso, branco, erguido na década de 40 no desenvolvimento da cidade. Era para ser o centro cultural da região, aonde a intelectualidade freqüentasse quase que diariamente, ora nas aulas, ora em cursos, ora nos tempos livres. Segundo a historia, isso costuma acontecer em breve períodos de cada geração. Como conto que cada geração tem no mínimo uns cincos anos de diferença, presumo que não verei a minha pulsando por aqui. Já estou terminando o curso e ate agora nada de muito empolgante acontecera, então é torcer para algo de novo quando isso tudo acabar, que ligue minhas turbinas para o viver.
Adentrei o prédio, já retirando o cachecol que envolvia meu pescoço. Difícil, pois enroscou na minha barba serrada que gostava de cultivar pelo simples fato de não machucar a pele e sofrer com o frio desgraçado da água da torneira. Deveria ter algum dispositivo fantástico no meu prédio de encanamentos antigos que fazia essa mágica.
Desabotoando o enorme casaco esbarrei nela. Primeiro pensamento: xingar o sujeito. No momento que saia “seu merda” pelas minhas cordas vocais, engoli a seco o palavrão. Seus olhos castanhos claros foram o primeiro sinal de calor que tive. Seu casaco vermelho contrastou com a claridade que vinha da enorme clarabóia central do prédio. Como um prisma que deforma o feixe de luz, engasguei. Pedi desculpas, ela riu e continuou seu caminho. Num raro momento de pretensão, achei me bonito. Sorri sozinho e me sentido atraente fui ajeitar o cabelo. Inconscientemente todos fazem isso. Nesse momento agarrei o pompom que ainda estava sobre minha cabeça. Minha auto estima bateu no alto e caiu numa velocidade extrema. O “seu merda” finalmente saiu.
Sabe aquela sensação de insegurança, que te deixa sem graça, meio que fora de órbita, pensando forte num só assunto? Sou eu, naquela aula de estrutura metálica. Eu, amante de literatura, grande letrista de textos sem nexos que um dia seriam estudados, estava pensando longe naquela tarde. Pensei em diversos outros jeitos de esbarrar novamente com ela. Como nunca tinha a visto, fui para fora da sala refletir na melhor maneira de encontrá-la. Foi quando me surgiu umas idéias e peguei o bloquinho de pseudo-pensamentos que andava todo dia comigo e escrevi:
“Tarde fria, coisa nova
Pompom, sorriso, perfeição.
Ingênuo, engasgo e suor.
Coisa nova para aquecer a situação”

Nunca achava que ficava bom, mas guardava para um dia alguém doido o bastante lesse e publicasse. Como sabia que não viveria disso, fui estudar engenharia. Poderia servir para diversas coisas. Empresas, administrar algo ou simplesmente cumprir ordens. Nesse momento a crise existencial tomava conta de mim, então relaxei e deixei curtir essa fase melancólica, regada a Radiohead e Coldplay. Reclamava bastante da namorada que nunca tive, era um sofredor nato. Afinal eu era o ator principal da minha própria historia.
Depois de trinta minutos lá fora a pensar, resolvi caminhar para biblioteca a fim de pegar emprestado o décimo livro diferente que estava comigo. Como conhecia bastante o pessoal de lá e sempre fui um cara correto nas entregas, eles abriam uma exceção. Deveria ter uma lábia incrível, pois nem sequer tinha começado a folhear o terceiro e já levava para casa outro. Eu, em plena juventude, aos 23 anos de idade, completamente confuso, tendo crise, lendo demais, fantasiando algo que desconhecia...que sensacional. Só faltava o que? Conversar comigo mesmo. Um certo altismo narcisista, que cultivava desde a infância, nos parquinhos do bairro.
Entrei na biblioteca sorrindo para o pessoal que lá trabalhava. Essa era o primeiro ponto da cordialidade que liberava, dentro do meu projeto de ter tantos livros ao mesmo tempo. Não vou entrar no quesito das outras táticas. Continuei naquela situação falsa ate chegar às mesas de estudo. Silencio total. Sempre imaginava como seria o dia naquele enorme salão lotado de gente, no maior silêncio, os inspetores de olho no primeiro suspiro alto para repreender, quando alguém como eu soltasse o grito mais alto do mundo quebrando de vez, o moral daquele recinto aonde as regras são as mesmas há séculos, só alterando, é claro a tecnologia. “No que sentei, olhei para a mesa a frente e lá estava ela”. Toda historinha de amor começaria um parágrafo com essa frase, mas o certo foi que lá estava ela do outro lado do salão, compenetradíssima num enorme livro de biologia nem sequer prestando atenção no ambiente. Não consigo processar na minha cabeça, como tem gente que não desvia o olho do livro quando entra alguém na biblioteca. Pode ser alguém novo, seu amigo, aquela menina linda e famosa, seu professor de calculo, o reitor, etc. Sou curioso, igual a todos, nem fanático nem blasé.
Logo me imaginei andando em sua direção, com no fundo aquela musica de Alceu, la belle d’jou, tocando com seus acordes angelicais. Mais que nada, sentei na cadeira dura e abri o livro no meio. Um ancião que vivia na minha rua, tipo Yoda, vivia a observar tudo e todos, desde que ficara viúvo há muito tempo. Veja só nem era nascido! Um dia quando passava por seu jardim, ele me chamou para conversar. A partir de então sempre que tinha vontade ia lá ouvir historias, lia alguns versos meus sem sentido e absorvia uma certa sabedoria. Numa vez ano passado ele me disse:
- Nunca demonstre insegurança para alguém que tenha despertado você. Isso não é corriqueiro. Então esteja sempre preparado. Fixe seus olhos nela. Isso a deixará curiosa ao mesmo tempo que agredida. Inverta o jogo! – e acendia seu cachimbo dando grandes baforadas.
Por isso levantei a cabeça e fixei meu olhar. Normal que ficasse cansado de ficar olhando para o mesmo ponto. Quase desisti por duas vezes. Na terceira, já devia estar com o olho lacrimejando quando ela levantou a cabeça, como querendo respirar e olhou para frente. E lá estava eu querendo chamar sua atenção. De que maneira? Com o olhar! Não tava dando certo. Ela abaixou a cabeça, mas logo levantou. Foi então que ela acenou. Abri um sorriso enorme e apontei para mim.
-Grande ancião, mestre da sabedoria – pensei. Logo imaginei ele há 50 anos atrás de gomalina no cabelo, piscando para as doces virgens da região.
Foi então como que um furacão, me passa o bibliotecário com outro livro de biologia debaixo do braço, indo em direção a sua mesa. É normal que ficasse arrasado com essa cena. Foi então que tive uma bela idéia. Puxei da mochila o velho gorro com pompom e coloquei na cabeça. Voltei a fixar meu olhar na direção dela. Quando já estava quase desistindo, com meia biblioteca rindo (por dentro) da cena, ela olhou. Arregalou os olhos, apontou para cabeça e sorriu. Sorri também, fiz cara de dor aonde tinha esbarrado nela (foi no peito), mexi no pompom e tirei o gorro. Ela riu alto e tapou a boca. Disse algo lá do outro lado. Como não se pode conversar aqui dentro, não entendi nada. Só fiz com mímica que ia lá para ouvir. Ela consentiu. Levantei em câmera lenta, fechei os livros com força, comecei a me aproximar. Na hora, escutei a musica de Alceu que tinha pensado antes. Agora era minha cabeça fantasiando. Fui passando pelas mesas, pensando no que ia dizer, sentindo minhas mãos ficarem suadas e frias. Achei que ia dar meia volta e seguir meu caminho de fracasso. Pensei no velho ancião. Pensei em seus olhos. Vi seu sorriso. Faltava uma mesa somente. Sentar ou não sentar? Não errar, não estragar, não se lamentar!!! Fiz que ia sentar-me, tirei a cadeira do lugar, me aproximei , me agachei, olhei para ela e disse:
-Olá!
Foi então que algo de ímpeto ocorreu comigo. Tasquei lhe um beijo na boca. Tudo bem que não foi um longo beijo apaixonado, mas sim um selinho. A deixei sem reação. Olhou-me com os olhos arregalados, surpresa pelo fato ocorrido e não acreditando. Complementei:
-Espero esbarrar contigo amanha de novo! Levantei, dei um tchau e uma piscadela tosca (que podia ter guardado para mim), comecei a andar em direção da porta. Não pude deixar de triunfar naquele momento e bati a porta com força.
Sai do prédio ao anoitecer, sem nenhum sinal de neve no horizonte. Coloquei as luvas e o gorro, atravessei a rua e comecei a correr. Algo em mim tinha mudado e precisava contar para alguém. Pensei em relatar esse momento único, mas resolvi ir correndo contar para o ancião. No caminho pensei:
-Deveria ter anotado todas as dicas. Se continuar assim, estou satisfeito. Não preciso de muito.