Terça-feira, Junho 09, 2009

Mudanças coloridas

Das grandes janelas do auditorio podia ver as arvores floridas de uma primavera atipica. Sem mais o que pensar entrou pela porta rumo a escuridão que o esperava.

Chegando lá, percebeu que nada via. E desse nada, quis afogar-se. Ao invés disso, uma mão foi lhe estendida. Mas no escuro nada via. Então a mão o tocou. Bruscamente o levou a uma sala, um pouco mais iluminada que a escuridão. Porem nessa sala de um cinza escuro, tambem nada via. E por defesa, tambem quis afogar-se. Prendeu a respiração e fechou os olhos. De novo, a escuridão da primeira sala.

Empurrando, o nada para deixa-la, foi puxado novamente. Bruscamente, foi jogado a uma outra sala. Levantou-se com dor na costas e nos braços. Esfregou os olhos e a nova sala de cinza passou para um cinza chumbo. Ainda era escuro porem avistava algo. Via vultos, casas e arvores. Nunca pediu aquilo e fechou os olhos. Implorava pela escuridão. Apertou o nariz e quis afogar-se. Ainda não escutava nada. Mas na sala cinza, algo se tornava roxo. E , uma mão levemente o tocou. Abriu os olhos para ver o que era e, como num segundo, caiu numa sala cinza clara.

Refazendo-se de mais uma brusca viagem, avistou vultos mais nitidos, casas com jardins e arvores floridas. Caminhou um pouco, porem a sala não era grande e ficou preso a suas medidas. Quis empurrar a parede transparente mas já não tinha forças. Socava a parede para ver se alguem o escutava. Antes de socar pela ultima vez, uma mão o segurou e, num segundo, foi arremesado a outra sala.

Deitando no chão, com o corpo todo doendo, abriu os olhos e a claridade emanava, de uma forma que o cegava. O que adiantaria a claridade senão se enxergava. Implorou pela escuridão novamente. Sua prece não foi atendida e com as mãos sobre os olhos caminhou. Por horas esteve caminhando com os olhos fechado. Começou entnao a acostumar-se com aquilo. A partir de agora imaginaria tudo que gostaria. Assim a vida se tornaria mais bela e pura. Sabia que talvez toda aquela claridade nunca cessaria. Mas a sua vontade de viver atraves de seus proprios sentimentos e discernimentos bateu mais forte. E quando pensava na figura mais encantadora de sua vida, uma mão o tocou levemente. Sabendo que seria novamente tragado, tomou coragem e tirou as mãos do rosto. Abriu os olhos e viu nitidamente o vulto a sua frente. Mas desta vez nada o puxou. Ouviu o barulho do vento, dos passaros e sentiu o cheiro de terra. Sorriu pela ultima vez e caiu para sempre na imensidão desconhecida.

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Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Feliz ano novo

O desejo de feliz ano novo foi rápido e burocrático. Ninguém poderia dizer que a historia daqueles dois terminara no rápido beijo de boa noite. Dela poderia esperar qualquer coisa, livre, irônica, despojada, cheia de si, mas com um enorme peso na consciência em não realizar tudo aquilo que lhe importava. Já ele carismático, de bem com a vida e esportista, só poderia se esperar um sussurro tenso debaixo dos lençóis e um desabafo alto para a paisagem que o constrói. Mas não foi isso que aconteceu.

Ambos ficaram pensando nas semanas que se passaram. A intensidade do relacionamento e a vontade de se querer estavam latentes desde aquele passar de lábios rente um ao outro no primeiro encontro. Ninguém sabia da existência do outro, muito menos seus passados. Por isso a certeza que ele possuía foi se definhando dia após dia. Ao lado do telefone esperava uma resposta para aquilo que já sabia. Que dois corpos não se gostam tão intensamente iguais. Enquanto ele deixava o tempo passar, ela já ia esquecendo de sua forma, de seu corpo e de seu trejeitos. Malditos trejeitos que ficaram a deriva quando o barco adernou. Saberia ela que aquilo naufragaria? Seria ela sua própria sabotagem? Seria ele mais uma vitima do amor não condicional de alguém?

A cada sinal de transito que atravessava, retirava uma pétala de flor. Seu caminhar ficara lento e repetitivo. A cada sorriso correspondido, uma sensação de vazio. A cada palavra pronunciada, uma lágrima brotava. Não tinha vergonha de esconder. Apos efêmeros anos, sentia-se vivo novamente. Seu coração pulsará, como não fazia há tempos. Sua voz embargada ao telefone denunciava a sensação pura de paixão. E ela percebeu. E no que percebeu, sabotou.

Autoritarismo, falta de expressões e acima de tudo, normalidade. A indiferença sobre situações diversas, a falta do riso pleno e a simpatia por ser livre, logo de cara, minaram o relacionamento que perdurou catorze horas e vinte e oito minutos. Desde o amanhecer naquela festa ao adeus na porta de sua casa. Nesse período de tempo, ele encontrou a plenitude. Ela viu a plenitude dele aflorar. Ela se resignou a dar-lhe a mão, ele queria o sentimento. Muito mais que aquilo que negociaram, o momento. O momento de ficar juntos. Ela aceitou a proposta, ele entendeu errado. Ela seguiu em frente, ele ficou a dar voltas. Até cair tonto de tanta paixão que ainda poderia entregar.

Para isso, ainda guarda os caules das flores, esperando o ano terminar e quem sabe assim, aquelas pétalas que caíram logo nos primeiros dias do ano, voltem a colorir seu buque com cores ainda não imaginadas.

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Sexta-feira, Dezembro 26, 2008

Janela Indiscreta

Certo que há semanas as luzes do prédio em frente ao meu ficavam acesas durante todo o dia e também durante a noite. Sempre quando chegava de madrugada vindo de algum lugar, a claridade daquele apartamento sempre iluminava meu corredor, tornando mais fácil minhas idas ao banheiro e ao quarto. Mas havia naquela claridade algo que me incomodava.

Nas primeiras vezes resmunguei que aqueles deviam ser sócios da companhia elétrica, pois não estavam a par do gasto astronômico. Com o passar dos dias, minha cabeça começou a imaginar outras funcionalidades para aquele apartamento. Poderia ser uma empresa que trabalhava dia e noite, uma central de farmácias quem sabe, ou um banco de investimento que operava tanto as bolsas de Tóquio, Hiroshima Nagasaki como as bolsas de Nova York, Ohio Texas. Depois de uma brilhante dedução que não se passava de um grupo de arapongas do governo espionando a lavanderia clandestinas de algumas moças do nordeste brasileiro que não pagavam impostos, comecei a relaxar e fui comprar alguns limões para complementar a minha bebida do momento, gin Tonica.

Passando pelo mesmo prédio, naquele começo de noite, vi as luzes do apartamento piscarem três vezes para mim e ainda assobiar fiu-fiu. Pisquei de volta tonto com o flerte indecente que aquele conjunto de janelas esbranquiçadas me fizera. Resolvi apertar o passo e ainda sofrendo daquele flerte acabei trazendo lima da pérsia ao invés de limão. E não é que ficou bom?

Chegando em casa suado de tantas peças de roupas juntas decidi me despir e respirar o ar puro da cidade poluída que morava naquele inverno rigoroso no hemisfério norte. Para minha total surpresa, vi que no apartamento existia um homem ou mulher. Não estava certo sobre o que era devido ao cabelo grande que caía sobre os ombros daquela pessoa. Porem o bigode ralo no canto da boca me deixava mais intrigado.

Temendo por minha própria integridade física, resolvi ligar para a pizzaria e pedir uma pizza media de portuguesa, sem azeitonas, que retifiquei no telefone. Perguntaram me sobre a bebida e respondi que por agora ficaria com meu gin Tonica. Me deram o prazo de 30 minutos. Retruquei dizendo que nessa meia hora algo de muito ruim pudesse me acontecer. E foi o que aconteceu. Aquela maldita coxinha que comi ontem a noite estava fora da validade já que a guardei juntamente com as frutas na fruteira.

A campainha tocou no momento que saia do banheiro aliviado. Antes de abrir a porta notei que as luzes do apartamento de frente estavam apagadas. Temendo o pior, pedi para o entregador se apresentar deixando a pizza de lado, num numero circense de um minuto. Estranhando meu pedido, mas de acordo com o slogan da pizzaria de que fazem qualquer pedido, começou a dançar um folclore russo que a cada batida de palmas era acompanhada com um HEY!

Malditos russos, logo pensei. São eles que estão por trás de todo o desperdício de energia elétrica da cidade. E não eram os gatos que saiam no jornal vespertino. Achei melhor contar para alguém. Como já era tarde, voltei me ao entregador de pizza, dei-lhe o dinheiro e ainda insisti para que ficasse com o troco. Num português capenga ele me agradeceu sem antes me entregar um envelope vermelho. Temendo ser uma carta bomba, peguei as luvas de borracha e com cuidado abri o envelope. Surpreso ao ver que dentro só havia um panfleto com os novos sabores da pizzaria, rasguei-o com toda a raiva do mundo execrando a todos que me renegaram um desconto na compra da próxima pizza.

Desconfiado porem enfastiado, resolvi me concentrar na janela fazendo sinais específicos para aquela claridade toda. Com o livro de código Morse ao meu lado, demorei cerca de uma hora para transmitir toda a mensagem aos arapongas. Eles responderam rapidamente, mas só fui descobrir na outra manhã debruçado sobre os livro na mesa que aquilo tudo que mandaram dizia:

- Obrigado pela receita. Faremos esta noite. Está convidado.

Não pensei duas vezes, sai de casa correndo até a loja mais próxima e comprei um belo terno azul turquesa sem listras. Fiquei imaginando o que seria do meu jantar de hoje se aquelas intermitentes luzes do apartamento da frente estivessem desligadas nos finais de semana.

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Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

Verbos II

Posso.
Posso, mas não quero.
Tenho.
Tenho, mas não possuo.
Peço.
Peço, mas não consigo.
Vivo.
Vivo, mas não sinto.
Sofro.
Sofro, mas não resolvo.
Verso.
Verso, mas não fraseo.
Beijo.
Beijo, mas não abraço.
Diga.
Diga, mas não fuja.

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Sexta-feira, Novembro 07, 2008

Podres ensinamentos

Estava contente. Sorridente a caminho de algum lugar que nem ele saberia. Porem andava contente. Tudo na mais perfeita conjunção. Se gostasse de horóscopo como as meninas, poderia dizer que lua e saturno estavam alinhados para o bem da humanidade e para seu próprio bem.

Logo encontra alguém que de cara não reconhece, mas ela sim o reconhece. Afinal esses longos cabelos grandes, além de escolher a cara do protagonista, tambem esconde aquilo que realmente pensam os mais críticos. Que isso não passa de uma timidez exacerbada para um ponto em comum dos seres humanos: a introspecção. Sendo assim, após ouvir o relato que ela partiria sem volta, ficou ofegante. Tentou disfarçar a realidade imposta e engoliu seco o marasmo dos dias infames que passaria após essa noticia. Que fantasia é esta, que impõe os desejos mais nobres, mas ao mesmo tempo leva para longe esses sonhos que não passam de um transtorno imensurável? Como tratá-los de forma bela se o reconhecimento do proximo não chega aos pés de sua adoração?

Sorrindo falso, de olhos arregalados, e de fala mansa porem com gaguejos se despediu sem mostrar seus anseios. Aquela cartada que iria utilizar em breve, escapava-se pelas mãos. Sabe a areia fininha que corre pelas frestas do corpo porem grudam em pequenas particulas difíceis de tirar inclusive no banho? É parecido, metaforicamente.

Na infãncia aprendemos a respeitar tudo e a todos. A educação foi imposta plenamente correta com lances de genialidade de ambos, sendo agraciada por momentos tenros e felizes com a genetica falta de preparo psiquico que o corpo humano é capaz de entregar-se. Por isso ao sentar-se no banco de madeira no grande hortifruti e beber devagar seu expresso, teve mais uma de suas mirabolantes idéias. Não deixaria passar em branco aquele sentimento esquisito que chamava excitação. Iria ligar. Iria tentar, pois sendo os momentos, únicos a cada instante, perderia o afeto imposto por um olhar demorado, lá atrás. Meses atrás. Em busca de uma realização pessoal digna de sucesso.

Mas preferiu o fracasso. Este que margeia os falsos sorrisos, os falsos equilibrios e os falsos olhares. Pois para poder viver como gostaria, teria de ser criado na marginalidade. Não no sentido figurado da palavra, mas no sentido amplo. Como na avenida principal não existia sinal para nenhuma parada, que seja melhor seguir pelas menores marginais, tendo a possibilidade de reflexão pronta para agir a qualquer momento.

Não sorriu. Seguiu em frente no transito caótico, desviando de todos e de tudo, com a cara amarrada e preocupada. Parou na esquina, tirou um dinheiro do bolso, comprou um belo sorvete duplo e com leves colheradas foi se deliciando com o momento. Momento único numa tarde de esclarecimentos unicos. Da paixão platônica incondicional de um homem por uma mulher.

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Domingo, Outubro 19, 2008

Em cena

- ...Do alto, eu enxergo que nosso amor simplesmente acabou. Como folhas secas que teimam em cair no outono gélido dessa cidade, eu suplico que me dê mais uma chance para que possa demonstrar todo o apreço que sinto por você. Sinto falta do seu cheiro, de sua pele, dos seus sussurros e é duro falar, do seu sorriso...
- ...Parafraseando um grande escritor..... que esqueci o nome!!!! Porra, não consigo me concentrar.
- Calma Clovis. Sua entonação estava boa, sua posição também. Manteve o corpo ereto desde o principio. Apreciava o modo como gesticulava. Eu, mesmo, estava condizente que o amor que perdera era real.
- Mas não era, meu caro. Tento há dias, concentrar-me no texto que me é pedido, e não consigo sequer, pegar o tom da palavra final que o homem, cercado pela desilusão entrega-se as coisas ruins da vida e se afunda no submundo.
- Clovis, preste atenção no que irei te dizer. Mas somente uma vez. Não quero mais passar tanto tempo explicando uma coisa que você, meu caro, já sabe desde quando começaste. E isso não foi ontem. Desculpa, já faz anos.
- Eu sei, eu sei. Isso que mais me intriga. Já estou ambientado com o cenário, com figurino, com as luzes e com tudo. Como estava te falando.... Bom dia Dona Gertrude, os filhos vão bem?.... o processo que me encontro é que está errado. O sentimento, que preciso transparecer do personagem, não está convicto. Qualquer pessoa com um pouco de sensibilidade notará que soa mentira tudo que sai da minha boca.
- Ora Clovis, que dramalhão é esse, meu rapaz? Você foi capaz de coisas belas naquela outra semana. Se lembra como estava difícil para encontrar o tom. Aquela problema do dia anterior foi sanado, e você só não foi aplaudido pelas arvores e pássaros por que eles não possuem mãos. E agora, aflito sobre esse texto, acha que o mundo acabou, que não serve para dizer mais nada e irá se resignar.
- Realmente você não está entendendo.... opa seu Gerson, dia bonito não? Será que chove?... Mas voltando a vaca fria. Se o processo é visto de um maneira clara, não será eu, que irei transformá-lo numa coisa histriônica, difícil de ser compreendida. Você já comentou das arvores e dos pássaros. Vai dizer daqui a pouco que os bancos da praça irão se mover da tamanha delicadeza que foi encontrada nas minhas palavras.
- Agora chega!!!! Concentra no texto, não posso ficar mais tempo me degladiando com você, sobre algo que você sabe e está com preguiça de reproduzir. E também não adianta você colocar culpa nos outros que te cumprimentam.
- Eu te digo uma só coisa. Esse negocio de amor é difícil. Incompreensível, e eu nunca vou deixar me levar por essa onda. Por isso que mantenho meu espectro centrado no trabalho e não deixo nada interferir.
- Como não? Agorinha você se desconcentrou só porque desarrumaram o que você juntou. Não devia deixar-se levar pelo que os outros dizem.
- Porra, eles só disseram bom dia.
- Por isso mesmo. Vamos lá. Foco, eu quero é foco. E para de choramingar e continuar a varrer a rua porque daqui a pouco vão reclamar. Você sabe como é rua de intelectual.

Terça-feira, Setembro 30, 2008

Agulhas dermatológicas

Fazia frio naquela tarde chuvosa. Arregacei as mangas para não molhar mais a roupas Maldito guarda chuva furado. E porque não comprei um novo?, deveria me perguntar. Mas não disse nada. Pelas beiradas e pelas marquises fui caminhando sozinho na rua deserta. Chegando aquele portãozinho verde, toquei o interfone e uma voz idosa, pediu meu nome e idade. Para que a idade, retruquei. Não houve resposta do interfone. Toquei de novo e a voz idosa perguntou meu nome e idade. O mundo caia sobre minha cabeça. Era melhor dizer e pronto. Nilton, 32 anos, agora por favor abra a porta. Um barulho estranho fez com que a porta se abrisse. Eu, já ajudando a porta automatica, entrei rapido e nem esperei para ser fechada.
Lá dentro, o clima era agradável. Logo de primeira senti aquele cheiro de alfazema com cravo no ar. Pensei logo, malditos insensos indianos. O que é para apaziguar só faz aumentar sua alergia. Olhei para um lado, aquela pequena queda d’agua, feita como enfeite, jorrava sem parar, aumentando o barulhinho de agua caindo juntamente com a chuva que caia. Tentei secar o cabelo molhado balançando o couro cabeludo com as mãos. Algumas senhoras protestaram então parei, pedindo desculpas. Mas não queria.
A secretária de nome Gloria, prontamente, me indicou uma cadeira e me entregou um formulário. Além disso disse que as agulhas eram sempre descartáveis e o processo o menos doloroso possível. Balancei a cabeça, recebi a prancheta com o formulario e como de praxe, comecei a espirrar. Descontrolavelmente. Insensos indianos falsificados. Devem ter comprado na barraquinha da esquina e dizem que são importados das regiões remotas da malasia anglo-saxã (se é que isso existe). Na hora, senti o cheiro de cebola crua. E vinha da minha mão, por certeza. Aquele almoço não somente ficou pra historia, como ainda está presente na minha vida. Será que foi por isso que ninguem sentou ao meu lado no metrô? De qualquer maneira irei lavar quando chegar em casa, a noite. Até lá, o cheiro acabará, pensei mexendo nas unhas sujas de tanto amassar massa de bolo.
Glória, a secretaria chamou meu nome e disse minha idade. Para que diabos ela quer dizer para todo mundo a minha idade? De dentro de uma portinha azul clara, uma senhora loira repetiu minha idade, e me chamou para entrar. Entrei com receio e me deram um avental tambem azul claro. O cheiro, antes de alfazema, mudou para alguma coisa indecifravel. Fui atras da caixa e lá li lirios brancos afeminados. Ora bolas, interessante saber que os lirios másculos tem um cheiro diferente deste daqui.
Deitado numa maca, com o o avental a tiracolo, adentraram ao quartinho onde estava, quarto mulheres de jaleco branco. E logo se apresentaram e eu, como bom de nome, não decorei nenhum. Sorri amarelo e logo começaram a me tocar de uma forma médica. Apalparem meu punho, mexeram na minha cabeca, falaram frases que não entendi e apertaram meu tornozelo. Depois disso tudo, me perguntaram sobre o que me trazia aqui. Respondi, minhas costas me matam. Todas afirmaram com a cabeça e pediram para virar de bruço. Somente de cueca, já que o avental era aberto atrás, oito mãos mexiam nas minhas costas e eu, gostava. Disso, me mostraram agulhas descartáveis. Disse OK e começou um frenesi de frases misturadas em chines e minha lingua mãe, intercaladas com gritos de ui vindo de mim, a cada momento que as agulhas penetravam em algum campo do meu corpo. Depois de alguns minutos de sofrimento, arregalei os olhos e tentei contar as agulhas. Mais de vinte pude ver. Parecia uma estátua de pedra sem poder me mexer, deixando meu corpo inerte a qualquer movimento. Quisera eu que um mosquito não pousasse em mim. Também com aquele cheiro de lirios brancos, só um mosquito para lá de “Barbie” adoraria ficar naquele ambiente. Juntando com meu cheiro de cebola crua nas mãos era tiro e queda.
Mofei por meia hora, sem mexer nada. Intocável. Volta e meia aparecia uma das mulheres que esqueci o nome, e me perguntava se estava bem. Claro que não, todo picado, passando frio e incapaz de mexer o mindinho, sorri falso com os dentes amarelos de nicotina. Foi no que a senhora me respondeu: meu filho, contra o cigarro, essas agulhas não servem. Peraí, como a senhora advinhou que fumo? Ora está nos seus labios, disse ela sem ao menos encarar-me.
Por essa eu não esperava. Imóvel, sofrendo dilacerações morais pelo corpo, resignei-me a sorrir falso novamente e a fechar os olhos para que o mantra do ambiente penetrasse surdamente pelo reino das palavras. Palavras desconexas que não soube até agora o significado. Porem acabei voltando diversas vezes lá e a as agulhas que no começo teimavam a doer, agora não faziam sequer cócegas no meu corpo todo perfurado. Se alguem perguntava porque das crateras do meu rosto que tanto me angustiavam na adolescência, já sabia na hora o motivo: a Acupuntura.

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